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MUSEU HISTÓRICO MUNICIPAL

A Família Pires

 

A patrona do Museu Histórico Municipal de Ribeirão Pires é a Família Pires, embora a intenção da homenagem faça mais sentido a Antônio Pires de Ávila, mestre de campo e patriarca, do que à sua vasta família. A homenagem, porém, não é totalmente inválida, mas precisa ser recontextualizada, posto que até hoje produz muitas dúvidas e questionamentos. A primeira dúvida é: teria mesmo Antônio Pires de Ávila vivido na região de nossa cidade?

 

Do ponto de vista da historiografia, a região do Grande ABC sempre foi pouco documentada. À época da criação do Museu Municipal, 1983, eram poucos os livros que tratavam das origens desta região e seus municípios. Acreditava-se, por exemplo, que a família Pires havia habitado, em 1716, a região do Pilar. Hoje, sabemos que Antônio Pires jamais poderia ter morado no Pilar, pois esta região já era habitada há anos pelo capitão-mor Antônio Corrêa de Lemos, que, inclusive, fundou uma capela no ano de 1714, apenas dois anos antes da suposta chegada de Antônio Pires de Ávila.

 

Este erro levou muitas pessoas a associarem o ribeirão que nasce no Pilar ao "Ribeirão dos Pires". Graças às pesquisas do historiador Wanderley dos Santos, em seu livro História de Ribeirão Pires, hoje sabemos que as terras do Pilar pertenceram ao capitão-mor Antônio Corrêa de Lemos. Quanto ao ribeirão que ali nasce, seu nome verdadeiro é "Ribeirão Grande", ou Iguaçu, seu nome primitivo em Tupi. Há um outro córrego, bem menor e mais fraco, chamado Piripiri, que passa ao lado da Avenida Santa Clara (antigo Caminho do Pilar), que também não deve ser confundido com o "Ribeirão dos Pires".

 

Onde vivia Antônio Pires?

 

O trecho de uma carta de Antônio Pires de Ávila, datada de 24 de março de 1716, diz o seguinte: "Antônio Pires de Ávilla possui um sítio que fabricou na paragem chamada Cassaquera" (Gu-açaí-quér-a, do Tupi antigo, refere-se a coisa que espalha e para, ou seja, a lugares que formam alagadiços, charcos ou pântanos, cuja característica é a água parada). Interpretando essas características, é muito certo que a casa-sede de seu sítio ficava às margens do córrego Cassaquera, situado entre Mauá e Santo André. Construir um sítio ou fazenda à beira de um riacho, córrego ou ribeirão era um padrão da época, pois isso facilitava a produção de riquezas e o sustento da família.

 

Se por um lado, a casa-sede do sítio de Antônio Pires de Ávila ficava em Cassaquera, por outro, suas terras invadiam uma área a noroeste de Ribeirão Pires, mais precisamente na região dos bairros da Vila Belmiro e da Vila Suely, que são banhados por um ribeirão que, com o passar dos anos, levou o nome dos Pires - portanto, "Ribeirão dos Pires". Vale lembrar que, no Século 18, não existia as atuais divisas e tudo era um grande território pertencente à Vila de São Paulo.

Mapa das terras de Antônio Corrêa de Lemos (Pilar) e Antônio Pires de Ávila (Cassaquera), segundo carta de solicitação de sesmaria, de 24 de março de 1716. A área preenchida de marrom corresponde à solicitação feita por Pires de Ávila a Dom Braz Balthasar da Silveira, governador de São Paulo. Esta área ficava a oeste de Ribeirão Pires, portanto, bem distante do Pilar. Arte: Marcílio Duarte.

A Ferrovia consagrou o nome dos Pires e desbancou o Pilar

 

No Século 19, a região de Ribeirão Pires e Mauá ainda era uma só e se chamava Pilar, ou Bairro Pilar (lembramos aqui que Bairro Pilar não é apenas o atual bairro do Pilar Velho, mas uma enorme área que abrangia Ribeirão Pires e Mauá), justamente por conta da capela, que era a única referência topográfica do local. Se seguisse essa tendência, a cidade de Ribeirão Pires deveria se chamar, hoje, Pilar. Mas a chegada a ferrovia mudou tudo.

 

Antônio José de Moraes era o proprietário de um sítio denominado "Sítio Ribeirão Pires" - possivelmente adquirido depois de duas gerações do espólio original de Antônio Pires de Ávila. Este sítio abarcava todo a região central de Ribeirão Pires e se estendia a norte para Mauá, passando pelos os bairros do Centro, Itacolomy, Planalto Bela Vista, Mirante, Vila Gomes, Vila Belmiro, Vila Suely e Parque Aliança e, também, o famoso "Ribeirão dos Pires". No dia 28 de junho de 1861, Antônio José de Moraes vendeu uma parte deste sítio à ferrovia para a construção da estrada de ferro. Como o sítio se chamava "Sítio Ribeirão Pires", a parada de trem construída em 1885 levou o nome de "Estação do Ribeirão Pires". E foi assim que nossa cidade deixou de se chamar Pilar, para se tornar Ribeirão Pires, pois o referencial topográfico deixou de ser a capela para ser a estação de trem.

Construção do leito da ferrovia em Ribeirão Pires, no Século 19, nas terras que foram de Antônio José de Moraes. É um registro raro do que foi o Sítio Ribeirão Pires, uma floresta úmida e fechada. Acervo iconográfico do CDH - Centro de Documentação Histórica. Coletada por Roberto Bottacin.

De onde vieram os Pires?

 

Os reduto dos Pires sempre foi a vila de São Paulo, hoje capital. Lá, eles tinham uma sesmaria em nome de Salvador Pires, um dos mais antigos descendentes desta família no Brasil. Antônio Pires de Ávila viveu pouco tempo no seu sítio de Cassaquera, pois logo retornaria às suas obrigações de Mestre de Campo, na busca incessante por ouro e prata no interior do Estado, até voltar para São Paulo, lugar onde atuou na cena política junto com sua enorme família, até morrer em uma prisão no Estado da Bahia.

 

Qual é a contribuição de Antônio Pires de Ávila para a nossa cidade?

 

Não é possível dizer que Antônio Pires de Ávila foi o precursor do desenvolvimento de Ribeirão Pires, pois sua atuação neste sentido foi nula. Ele foi governador e capitão-general da capitania de São Paulo, mas suas atenções estavam todas voltadas para a Vila de São Paulo, onde sua família tinha muita influência política. Pires de Ávila nada fez para tornar esta região, hoje Mauá e Ribeirão Pires, mais desenvolvida, pois isso não era sequer cogitado naqueles tempos remotos. Pelo contrário, depois de sua morte no fundo de uma prisão em 1738 em Salvador, nunca houve registro da atuação de seus descendentes na região, que poderiam dar prosseguimento à obra do pai, caso houvesse alguma.

 

Curiosamente, a única contribuição de Antônio Pires de Ávila foi o nome do ribeirão, que, devido a uma coincidência na compra das terras de Antônio José de Moraes pela ferrovia, acabou se consolidando até os dias atuais.

 

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Texto e pesquisa: Marcílio Duarte, 2017.

 

Referências

 

MENDES, Almeida. Dicionário Geográfico da Província de São Paulo. São Paulo: Tipografia Espíndola Siqueira & Comp. 1902. 532 p.

 

SANTOS, Wanderley. História de Ribeirão Pires. Santo André: Editora da Universidade Federal do ABC. 2017, 132 p.

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