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ENTREVISTA COM REYNALDO BESSA

É a primeira vez que você vem à Ribeirão Pires. O que achou de nossa cidade?

 

Sim, foi a primeira vez. Já tinha ouvido falar muito da cidade, mas não havia surgido ainda a oportunidade de visitá-la. Fui de trem – tenho uma relação de afeto com os trens. Não saberia explicar -, e a estação de Ribeirão Pires não passa despercebida. É linda, a arquitetura, a maneira como foi preservada. Ao desembarcar, e ainda olhando a estação – que só depois tomei conhecimento de que é tombada -, fui pensando: “se esta cidade decidiu preservar os moldes originais desta estação, então deve ter mais a oferecer”. E tem mesmo, e muito. O Centro de exposição e história foi um susto de beleza. Há realmente muita história ali naquele prédio lindo. A qualidade da água, o sítio onde Oswald de Andrade viveu um tempo. Enfim, Ribeirão Pires é uma cidade diferenciada. No melhor sentido do termo.

 

Você foi premiado com o Jabuti de 2009 pela obra "Outros Barulhos" e foi finalista de outros prêmios importantes dentro e fora do Brasil. Que dica você dá para os novos escritores que desejam lançar suas obras e conseguir espaço no mercado editorial?

 

A primeira coisa é adquirir toda a bagagem de leitura e escrita possível. Criar intimidade com a língua. Possibilitar novas experiencias. O escritor não escreve com o tempo que lhe sobra, mas com o maior tempo que tem e até com o tempo que lhe falta. Escrever é como uma solitária, nos devora. Mas isso é o básico. Todo bom escritor deve saber. Agora, um conselho importante que deixo, é que, nunca escrevam para ganhar prêmios. Estes são meios e não um fim. O escritor que escreve para ganhar prêmios está perdido. Fracassa antes de começar. Os prêmios são consequências de um trabalho bem feito, que, enfim, é reconhecido por um crivo especializado. São também meios, recursos de colocar o livro em evidência e, consequentemente, ao alcance do leitor. O aspirante a escritor deve focar-se no ofício da escrita, na reflexão desse ofício. Deve superar-se, sempre, e principalmente, descobrir a sua voz. Horácio Quiroga, um escritor uruguaio, dizia o seguinte: crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo saibas. Afora tudo isso, aconselho começar não pela edição do livro, mas pelos inúmeros concursos e prêmios que existem espalhados pela internet. É uma forma de ir testando, aos poucos, a força de cada texto. Só depois, devem arriscar uma publicação.

 

Existe algum segredo para desenvolver o processo criativo? Como o escritor deve lidar com a crítica e com os bloqueios criativos?

 

Escrever bem é muito difícil, mas não impossível. Todos os grandes escritores, incluindo, Machado de Assis, tiveram momentos de incertezas, tiveram também, mesmo que não assumam, vontade de desistir. Escrever é dor e delícia. É revelar-se. Bloqueios surgem de julgamentos, na maioria dos casos, equivocados, precipitados. Em plena pós-modernidade, encontro alunos que não conseguem escrever porque, num dado momento, leram autores consagrados do começo do século XIX, e por isso, achavam que escrever era só aquilo. O mundo mudou, a língua mudou, consequentemente, o jeito de se fazer literatura também mudou. Muitas vanguardas surgiram e foram superadas. A grande literatura não parou em Machado de Assis ou José de Alencar. É um organismo vivo e em constante transformação. Toda grande arte trata do Ser em seu Grande tempo, e este também está em constante mudança, formação. Aconselho-os, num primeiro momento, a escrever sem julgamentos, a aceitar, por um tempo, que seja, um primeiro impulso imperfeito, e depois, isso pode ser trabalhado, com a intuição, a técnica e por aí vai. Dessa refrega, pode nascer a voz do escritor. Com relação às críticas, elas virão. Não há outro caminho. De críticas ruins e inúmeras rejeições de editores, Faulkner escreveu o seu reverenciado, O Som e a Fúria.

Todo escritor é um grande leitor?

 

Sem dúvida. Até então, eu nunca encontrei um que não o fosse. São atividades atreladas, entrelaças. Uma acontece em função da outra. São como animais que se devoram e se regeneram, continuamente. Um não pode viver sem o outro, pois cessa o ciclo.

 

Falando dos clássicos, qual o peso e a importância dessa leitura na formação de um escritor?

 

Ítalo Calvino disse uma vez que um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer". É verdade; está constantemente dizendo. Conhecem a expressão quixotesca ou maquiavélica? Pois é. De onde essas coisas saíram? Além do mais, esses livros – sim, de leitura difícil até para os especialistas – permeiam tudo o que foi escrito de lá para cá. O mito de Odisseu, de Édipo, da Divina comédia, do Cavaleiro da triste figura etc. de um jeito ou de outro, permeia boa parte de tudo o que foi e é escrito. Ivan Junqueira, escritor e imortal, falecido recentemente, dizia que todo livro, de um jeito ou de outro, é meio Dom Quixote. Bom, por que ler os clássicos? Porque é melhor do que não os ler. Simples assim. Calvino de novo.

 

Você vem da geração do livro impresso. Como você lida com o livro digital? Essa "desmaterialização" te incomoda?

 

Em hipótese alguma. Sou da geração do livro em formato tradicional, físico, sim, mas aceito de boa que o digital veio para ficar. É uma nova revolução industrial com ainda mais força e louca velocidade. Tudo acontece agora. Esse é o tempo. A televisão não eliminou o rádio, assim, como o cinema não eliminou a televisão. São ferramentas que se completam. Ah, mas os alunos não escrevem mais, só utilizam áudios, quando querem se comunicar entre eles. Não há mais a carta, e até o e-mail é utilizado de forma mais tímida, e só em alguns casos mais formais. Sim, o excesso é prejudicial. O problema não é a plataforma, mas sim a forma como lidamos com ela. Bill Gates disse em entrevista que antes de computadores, seus filhos ganham livros. Não sei se isso é verdade. Mas se for, é por aí. Criticam muito a TV. O aparelho não tem nada a ver com tudo isso, mas sim, e de novo; é a maneira como lidamos com ele que complica tudo. Responsabilizar o instrumento, a ferramenta digital, a internet por todos os problemas é o mesmo que reclamar, ao carteiro, sobre o conteúdo das cartas, O carteiro só entrega as correspondências. Entende?

 

A última pesquisa Públicos de Cultura, realizada pelo SESC em 2014, apontou que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos 6 meses. O que você acha dessa realidade?

 

Triste, mas solucionável. Porém, ninguém pergunta por que isso está acontecendo. Focamos no efeito e não damos nenhuma trela para a causa. É evidente que isso é lamentável, mas não atribuo aos alunos toda a responsabilidade desse atual panorama. Alguém mais fracassou nessa história, não? Precisamos entender o problema, mas, antes de tudo, devemos nos focar na solução. Pergunto-me, às vezes, se não há outros interesses envolvendo essa situação lamentável. É bem certo que sim. Mas, os professores têm a nobre missão de imbuírem-se na transformação desse quadro. Atualmente, por mais delicada que seja a posição do professor, essa é a nossa missão. Missão de missionário mesmo.

 

 

Você também é professor e é um apaixonado por essa profissão. Qual a contribuição do conteúdo da oficina para os participantes, em especial os professores?

 

Sim, sou um apaixonado por esse oficio de mediar, compartilhar conhecimentos, refletir o mundo, formar o ser para ser e não para ter. Aprendo ensinando. A sala de aula é o grande laboratório do mundo, com suas virtudes e defeitos. Afinal o que é o mundo senão esse saudável conflito? A oficina, em seus diferentes módulos: básico, intermediário e avançado – dependendo das necessidades práticas da turma – serve como encontros que fomentam o ofício da leitura e a prática da escrita, alternadamente. Momentos em que discutimos a poiésis; o fazer poético, seja em poesia ou prosa. Quanto aos professores, estes têm a oportunidade de conhecer algumas ferramentas, alguns instrumentos, dicas, que por diversos motivos, não conheceram em suas formações acadêmicas. Porque escrever ficção, fazer literatura, não tem necessariamente, muito a ver com a didática em si. Explico: nós professores levamos para a sala de aula apenas o vislumbre, o reflexo do que seja literatura, e em geral, autores do cânone brasileiro. Com isso, diante de todas as adversidades, tentamos compartilhar esse universo encantador com o aluno. Portanto, algumas informações, alguns instrumentos linguísticos só são descobertos, revelados, vivenciados por um escritor, no seu dia a dia, em sua disciplina. E por ser assim, a maioria dos professores, simplesmente, porque estão imbuídos em outros contextos, outros interesses, e com certeza bem ocupados com os inúmeros afazeres de suas rotinas, não tem. Nisso, a oficina entra como tentativa de suprir essa lacuna. Os professores aprendem alguns suportes que acabam sendo essenciais em suas abordagens com seus alunos. Uma oficina de escrita, antes de tudo, não forma escritores, mas sim, leitores. No máximo, incita, incentiva, estimula o escritor que já está meio ali, de espreita, em meio aos anseios do aspirante. A oficina provoca esse escritor em formação, cutuca. E em muitas vezes até revela o escritor que o aspirante não é. Aí ele percebe, e vai fazer outra coisa. O que é positivo. Por que perder tempo fazendo aquilo que apenas achávamos que sabíamos fazer? A oficina também tem esse papel.

 

Você também é músico e tem cinco discos lançados, sendo um deles selecionado para o Prêmio TIM de Música em 2005. Em seu último CD (Com os Dentes, 2008) você explora a poesia de Alphonsus de Guimarães, Fabrício Carpinejar, Drummond, Leminski, Bukowski, Alice Ruiz. Fale um pouco desse projeto e sobre o desafio de musicalizar esses autores.

 

A poesia, muito antes da música, sempre ocupou um grande espaço na minha vida, desde muito pequeno. Meu poeta inaugural foi um parnasiano chamado Olavo Bilac, mas conhecido como o príncipe dos poetas brasileiro. Então, depois que passei a lidar com a música, no percurso – essa minha segunda via crucis – tentei unir as duas coisas, sempre. Até que um dia surgiu a oportunidade de gravar um disco de poemas musicados. Basicamente são músicas minhas sobre poemas de vários autores, uns conhecidos, outros nem tanto, mas todos com um excelente trabalho, com carreiras consolidadas. Cada um em sua respectiva região. Musicar poemas não é fácil, pois são textos prontos, e que não devem ser mexidos. Precisei achar a musicalidade exata, assim, como uma mulher acha aquele vestido perfeito. O resultado ficou bacana. O fato, é que preciso desse movimento-gangorra: poesia e música. Até mesmo por uma questão emocional. Costumo dizer que o escritor é mais solitário, mais triste, e o músico é mais agregador, mas feliz. Nem um nem outro, é lá e cá. Um sobe e desce ad infinitum. O disco com poemas musicados, chama-se “Com os Dentes”. Está esgotado.

 

Você já compôs com Zé Rodrix, Chico César, Zeca Baleiro e teve músicas gravadas pelo IRA! e por Rita Ribeiro. O que explica essa assimilação de suas composições por universos tão diferentes?

 

Na verdade, todos esses grandes músicos são amigos queridos. Fortalecemos nossa amizade porque estávamos sempre nos cruzando pelos corredores e bastidores de programas de tv e shows. Isso por volta de 95/96. Depois cada um seguiu a sua vida. Vez em quando voltamos a nos encontrar. Aí essas coisas rolam: shows, músicas novas etc. O Zé Rodrix é de outra geração, mas ficamos muito amigos porque um dia, na casa de um amigo em comum, o Raul Correa, mostrei meu trabalho. Ele curtiu muito e, assim, passamos a fazer muita coisa juntos: shows, músicas, projetos, trilha sonora, saraus etc. Até que um dia o Nasi, vocalista do Ira! que estava com um projeto de um disco novo, um projeto gigantesco, com direito a Acústico MTV e tudo mais, solicitou uma música ao Zé Rodrix (Por Amor). Ele fez a letra, e me pediu que a musicasse. Fiz em um único dia, claro..rsrsrsr. Eu não sou besta. E a música entrou, e é sucesso. Até hoje é bem executada em shows e rádios. O Nasi, depois que se separou do grupo, gravou-a em seu disco de carreira solo. Enfim, este foi um grande marco na minha carreira.

 

Quais são seus novos projetos?

 

Ano que vem, lanço um disco novo, duplo, antológico. Uma seleção com as músicas, na minha opinião, mais relevantes da minha história. Um tipo de retorno do filho pródigo. Com essas coisas do livro, os prêmios, as viagens, as feiras dos livros, os festivais literários, as expos, bienais e etc. acabei me distanciando um pouquinho da música. Mas, de vez em quando, passando a língua nela para não esquecer o gosto que tem. rsrsrs. Na literatura, poesia, lanço novo livro, de poemas, e também um infantil. É minha estreia no universo dos pequenos-grandes. Mas ainda têm as viagens, os shows do disco novo, os saraus, mas principalmente a família e os amigos que sempre tento não os perder de vista. A amizade e a família exigem presença. E faço questão de estar presente quando o coração parece, vez em quando, querer sair da lata. Nenhum sucesso é maior do que a família e os nossos melhores amigos. Eles aplaudem esse sucesso, mas, continuam conosco, quando, vez em quando, fracassamos. É isso.

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